Por décadas, a Classificação Internacional de Doenças em sua décima edição (CID-10) dividia a esquizofrenia em subtipos bem definidos: paranoide, hebefrênica, catatônica, indiferenciada, residual e simples, entre outras categorias menos utilizadas na prática clínica. Esses subtipos eram amplamente conhecidos até fora dos consultórios psiquiátricos, e a esquizofrenia paranoide, em particular, se tornou quase sinônimo popular do próprio transtorno. Com a chegada da CID-11, esse sistema de subtipos foi oficialmente extinto, e essa é talvez a mudança mais comentada — e mal compreendida — entre todas as atualizações feitas na classificação da esquizofrenia.

A justificativa para o fim dos subtipos não é burocrática, mas científica. Estudos acumulados ao longo de anos mostraram que esses subtipos careciam de estabilidade diagnóstica: um mesmo paciente podia apresentar características de um subtipo em um momento da vida e migrar para outro quadro completamente diferente meses ou anos depois, sem que isso representasse uma nova doença, apenas uma variação natural na apresentação clínica ao longo do tempo. Além disso, os subtipos não demonstravam valor prognóstico consistente — ou seja, saber que alguém tinha esquizofrenia catatônica, por exemplo, não ajudava de forma confiável a prever como aquela pessoa responderia a determinado tratamento, nem qual seria a evolução esperada do quadro. Também não havia associação clara entre os subtipos e fatores genéticos ou hereditários específicos, o que enfraquecia ainda mais a justificativa científica para mantê-los como categorias separadas.
O Que Substituiu os Subtipos
Em vez de subtipos fixos, a CID-11 adotou uma abordagem dimensional, na qual a esquizofrenia é entendida como um transtorno único, identificado pelo código 6A20, mas descrito por meio de dimensões de sintomas que podem estar presentes em intensidades variadas em cada pessoa. Essas dimensões incluem sintomas positivos, como delírios, alucinações e desorganização do pensamento e da fala; sintomas negativos, como embotamento afetivo, isolamento social e redução da motivação; sintomas depressivos; sintomas maníacos; sintomas psicomotores, que englobam desde agitação até lentidão generalizada e manifestações catatônicas; e sintomas cognitivos, relacionados a dificuldades de memória, atenção, velocidade de processamento e capacidade de abstração.
Essa mudança de lógica reflete um entendimento mais atual da psiquiatria: a esquizofrenia não se comporta como um conjunto de categorias estanques, mas como uma condição cujos sintomas variam em intensidade e evolução ao longo do tempo, muitas vezes dentro da mesma pessoa. Ao descrever o quadro clínico por dimensões, o profissional consegue capturar de forma mais precisa o momento atual daquele paciente específico, em vez de tentar encaixá-lo em uma caixa fixa que talvez não represente adequadamente sua experiência da doença.
O Que Significa o Código 6A20
O código 6A20 na CID-11 corresponde diretamente ao antigo F20 da CID-10, mas a estrutura por trás dele é bastante diferente. Enquanto o F20 se ramificava em subcategorias como F20.0 para esquizofrenia paranoide ou F20.2 para catatônica, o 6A20 funciona como um código guarda-chuva para o diagnóstico de esquizofrenia em si, complementado por qualificadores que descrevem o curso da doença — como se está no primeiro episódio, em episódios múltiplos ou em curso contínuo — e se o quadro está atualmente sintomático, em remissão parcial ou em remissão completa. Essa estrutura permite um nível de detalhamento clínico maior do que a simples atribuição de um subtipo fixo, já que descreve tanto a fase da doença quanto seu estado de atividade no momento da avaliação.
Vale destacar que a CID-11 também trouxe outro código relevante para a compreensão do transtorno, o 6A25, dedicado às manifestações sintomáticas de transtornos psicóticos primários. Esse código funciona de forma complementar ao 6A20 e é usado justamente para especificar quais dimensões de sintomas estão presentes em determinado momento, reforçando a lógica dimensional que substituiu os antigos subtipos.
Implicações Práticas no Diagnóstico e no Tratamento
Para os profissionais de saúde mental, essa mudança representa um convite a olhar para cada paciente de forma mais individualizada, avaliando o peso relativo de cada dimensão sintomática em vez de buscar um encaixe categórico. Na prática clínica, isso significa que dois pacientes diagnosticados com esquizofrenia sob a CID-11 podem apresentar perfis sintomáticos bastante distintos entre si, um com predomínio de sintomas positivos como delírios e alucinações, outro com maior peso de sintomas negativos e cognitivos, e o tratamento deve ser ajustado de acordo com essas particularidades, não apenas com base em um rótulo diagnóstico genérico.
Do ponto de vista terapêutico, essa mudança reforça uma tendência que já vinha se consolidando na prática clínica havia anos: a escolha de antipsicóticos e de estratégias de reabilitação psicossocial cada vez mais guiada pelo perfil sintomático específico de cada pessoa, e não apenas pelo subtipo histórico atribuído ao caso. Sintomas negativos e cognitivos, por exemplo, costumam responder de forma diferente aos tratamentos farmacológicos tradicionais em comparação aos sintomas positivos, e a ênfase dimensional da CID-11 ajuda a direcionar a atenção clínica para essas nuances, favorecendo planos terapêuticos mais personalizados, que podem incluir combinações de medicação, terapia cognitivo-comportamental, treinamento de habilidades sociais e suporte familiar, ajustados ao perfil predominante de cada paciente.
Outro ponto relevante é que a extinção dos subtipos não elimina o reconhecimento de manifestações como a catatonia, que continua sendo descrita, porém agora como uma dimensão de sintomas psicomotores que pode acompanhar o diagnóstico de esquizofrenia, e não mais como uma categoria separada e exclusiva. Isso significa que a presença de sintomas catatônicos continua sendo clinicamente relevante e deve orientar decisões terapêuticas específicas, como o uso de determinadas classes de medicamentos mais eficazes nesse contexto, apenas a forma de registrar essa informação no sistema classificatório é que mudou.
Quando o CID-11 Passou a Valer
A Organização Mundial da Saúde aprovou oficialmente a décima primeira edição da Classificação Internacional de Doenças em maio de 2019, durante a Assembleia Mundial da Saúde, mas a entrada em vigor formal para fins estatísticos internacionais ocorreu apenas em 1º de janeiro de 2022. Esse intervalo de tempo entre a aprovação e a entrada em vigor foi necessário para que os países-membros pudessem se preparar adequadamente para a transição, incluindo processos de tradução dos termos técnicos, adaptação de sistemas de registro em saúde e capacitação de profissionais quanto às mudanças estruturais na nova classificação.
No Brasil, a adoção plena da CID-11 para fins de codificação oficial em prontuários e faturamento pelo Sistema Único de Saúde ainda depende de um processo de transição gradual, já que grande parte da infraestrutura de registro em saúde do país continua operando com base na CID-10. Isso significa que, na prática cotidiana de muitos serviços de saúde brasileiros, é comum encontrar ainda o uso do código F20 e de seus subtipos, mesmo que a comunidade científica e boa parte da literatura acadêmica já utilizem a lógica dimensional da CID-11 como referência conceitual mais atualizada para descrever e discutir o transtorno.
Diferenças Que Vão Além da Nomenclatura
É importante entender que a mudança na classificação da esquizofrenia não se resume a uma simples troca de códigos ou nomes técnicos, mas representa uma revisão conceitual de como a própria doença é compreendida cientificamente. Os antigos critérios da CID-10, herdados de uma tradição diagnóstica que remonta a décadas anteriores, davam grande peso aos chamados sintomas de primeira ordem de Schneider, considerados na época altamente específicos para o diagnóstico de esquizofrenia. Pesquisas mais recentes demonstraram que esses sintomas não são tão específicos quanto se acreditava, podendo aparecer também em outros transtornos psicóticos, o que levou tanto a CID-11 quanto o DSM-5, usado como referência complementar em diversos países, a reduzirem a ênfase atribuída a esses sintomas isoladamente e a valorizarem, em vez disso, o quadro clínico como um todo, avaliado de forma dimensional e longitudinal ao longo do curso da doença.

